Não sabe brincar, não desce pro play
Escrito em Agosto 29th, 2008
Fui ver Brincando em Cima Daquilo após ler crítica feita por um homem em jornal, dando a premissa de uma peça de esquetes sobre mulheres neuróticas. Um tema curioso desses, ainda mais com Deborah Bloch fazendo o papel que foi de Marilia Pêra, me deixou instigada e lá fui eu em pleno meio de semana assistir a peça. De fato, as personagens são um tanto quanto maníacas – para o olhar de um homem machista, então, não tenha dúvidas disso.
Brincando é uma peça sobre mulheres lutando contra conceitos pré-estabelecidos, tentando sobreviver e amar em um mundo em que, até segunda ordem, homens mandam. São facetas da mulher que trabalha, que se apaixona, chora, briga, cuida da casa, protege filhos e diferencia fazer sexo de fazer amor. Deborah Bloch encarna um pouco de todas nós. Ao sair do teatro, não pude deixar de pensar nos relacionamentos modernos.
O tempo passa, mas os preceitos permanecem? Ainda existem mulheres que se deixam dominar por homens a tal ponto de anular suas vontades? Os homens ainda fazem de suas mulheres máquinas de sexo e esquecem do amor? Na época do computador e do Iphone, ainda existem casais guaraná de rolha?
Marcela foi casada por anos e sempre jurou diante de amigos que amava o marido acima de tudo. Em função deste amor, deixou passar diversas oportunidades em sua vida, inclusive de viajar para a França, que era seu sonho desde pequena. O marido não queria e não deixava que fosse sozinha, primeiro alegando ciúmes, depois dizendo que não conseguria dar conta dos filhos sem ela.
Joana sempre gostou de romance e, quando encontrou Edgar, achou que estava realizada. No início tudo são flores e o moço era romântico, carinhoso, paciente, um doce. Depois de anos de namoro, resolveram juntar os trapos e o quadro mudou. O romance bateu asas e voou e sexo deixou de ser prazer para se tornar hábito. Com dia e hora marcado, inclusive.
Pequenas surpresas, presentes inesperados, passeios em lugares nunca visitados antes, são alguns exemplos simples do que ajuda a manter viva a chama do relacionamento. A criatividade é importante, mas acima disso, a intenção é a que mais vale. Se tudo der errado, no final, ambos poderão rir da tentativa e a lembrança será mais importante do que o fato em si. Enquanto o outro trouxer inspiração para que aventuras sejam vividas, vale a pena prosseguir.
Marcela precisa se separar para viver seu sonho. Joana precisa encontrar prazer no sexo novamente. Todas precisam redescobrir o amor em novas tentativas. Falta a elas coragem para quebrar com a ordem atual das coisas, em prol de uma zona de conforto. O amor ainda é amor quando existe troca, compreensão, afeto – quando os dois sentem-se verdadeiros amantes a moda antiga.
Céticos diriam que é impossível ser assim por toda a vida, que a chama é eterna apenas enquanto dura. Será? Eu ousaria dizer que fogo que é fogo, não se apaga – a não ser que nunca tenha existido ou que um dos dois tenha deliberadamente jogado um balde de água fria na fogueira. Ninguém é perfeito, existem brigas e decepções, mas é importante sempre cuidar do sentimento, para que ele não se quebre, sume ou apague. Porque é certo que uma vez extinto, não volta jamais.
É daí que surgem o comodismo, as solidões vividas a dois, com cada um no seu canto, as traições, as desconfianças. Sábio é aquele que sabe a hora de terminar e não tem medo de seguir adiante. É isso. Na arte de procurar e manter o amor, ganha aquele que sabe brincar em cima daquilo mesmo.
Graças a Adriana e seu mais novo caso, Pedro Peão de Obra, me obriguei a pensar nas facilidades da comunicação moderna e seu impacto nos relacionamentos. Minha tão estimada amiga, que já há muito abandonou a fase dos prazeres e agora está decidida a se apaixonar, envolveu-se com um homem que parece sua alma gêmea. Eles tem os mesmos gostos, pensam igual, tem as mesmas reações para todas as situações e se complementam na cama como ninguém. O único problema é que suas agendas custam a bater.


