Escrito em Junho 15th, 2009
Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…
Nos meses em que estive ausente, estive apaixonada. E nas últimas semanas, tive que aprender à força a desfazer este sentimento para voltar a ser eu mesma. Entreguei-me a uma paixão intensa, daquelas que mexem com você, abalam suas estruturas, fazem você fazer algumas loucuras, falar coisas bonitas e planejar situações que só podem ser vividas a dois. A primeira sensação, quando descobrimos que tudo foi em vão, é de que o problema é conosco, que somos nós mulheres que amamos demais e que por isso, assustamos nosso parceiro e fazemos com que ele desista. Mas isso não é verdade.
O sentimento é mesmo um bicho complicado, que aparece quando menos esperamos e nos deixa cegos para não enxergar os sinais de que o outro não está tão afim de você. Existiria vacina para isso? Podemos nos prevenir, criarmos uma casca que nos proteja das ilusões? Como diferenciar um caso sem futuro de um que valha realmente a pena investir? Como nos prevenir de mágoas causadas por amores não realizados?
Tobias é um romântico incorrigível, que jurara a si mesmo não namorar de novo a não ser que tivesse certeza de que era a pessoa certa. Conheceu Fernanda em situação inusitada e a primeira coisa que notou era o quanto os dois tinham em comum. Em segundo lugar, admirou sua postura ética, seu caráter. Os amigos de Fernanda, que o adotaram como se fosse um antigo conhecido, amoleceram seu coração. Por fim, a inegável química na cama, seguida de atos falhos que só podiam ser coisa do coração, vieram como que a consolidar que estava na hora de começar um novo relacionamento.
Em três meses os dois dançaram juntos, viveram juntos, riram juntos, viajaram juntos, brincaram juntos, compartilharam momentos juntos. Tobias acreditou, se encontrou, se apaixonou e por um momento achou que estava amando novamente. Fernanda viveu o momento, correspondeu como pôde, mas quando se sentiu sufocada, resolveu terminar. Tobias sofreu, Fernanda se sentiu culpada. Tobias achou que a amizade logo de cara era melhor do que se afastar, que doeria menos estar perto do que estar longe e Fernanda entendeu que estar perto seria fazê-lo sofrer. Os dois estavam certos e ao mesmo tempo errados.
Tobias precisava estar perto para entender que não era a intensidade de seus sentimentos que tinha assustado a outra. A proximidade imediata era necessária para que encontrasse evidências de que não daria certo, que continuar juntos neste momento seria adiar o inevitável. A grande verdade é que quando algo não é para ser, simplesmente não é – e cada um tem a sua maneira de viver a via crucis para se convencer disso.
Fernanda se diz inexperiente, que não se sente pronta para namorar. Ainda prefere a emoção do inesperado, quer a liberdade, deseja viver por conta própria. Alguns diriam que ela está na fase de aprender a amar a si mesma, para que assim possa aprender a amar alguém - e se assim for, todo mundo vive isto uma vez na vida; com Tobias não foi diferente. É preciso curtir estar solteiro, porque somente assim descobrimos o que queremos (e se queremos) uma vida a dois. O momento em que escolhemos namorar, em que buscamos um companheiro mais que um amante, é onde Tobias se encontra agora. Esta fase é mais árdua e carregada de chances de desilusões e justamente por isso, ele tentou se defender da paixão - mas a forma com que as peças foram dispostas o convenceram a ceder. Ninguém foi culpado.
Tobias buscou estabilidade em alguém que ainda tem muito para viver e para conhecer. São as armadilhas de quando queremos gostar de verdade: fingimos não ver as evidências que aparecem na convivência, tentamos transformar o nosso momento no momento do outro e não compreendemos que muitas vezes as pessoas certas podem aparecer na hora errada (e vice-versa).
Não existe vacina. Podemos tentar fazer jogos com o sentimento alheio, tentar nos prevenir, tentar nos machucar menos, criarmos uma casca contra relacionamentos. É bom criar defesas, sempre. Isso faz doer menos, nos prepara para a dor do término, mas o coração, para o bem ou para o mal, não tem dono. Quando menos se espera, a paixão acontece de novo, às vezes até repete sujeitos, objetos, predicados – e não tem nada errado com isso. Diante desta lei inegável, resta-nos apenas torcer para que a próxima vez seja para valer.
Para cada um dos momentos em que vivemos, ao lado de pessoas diferentes, uma vez que especiais, sempre haverá a recordação, a memória de como foi bom e do quanto aprendemos sobre a arte do que fazer e do que não fazer. Sempre haverá a lembrança da cor do trigo - e, em alguns casos, novos rituais, ainda que diferentes, porém eternos. Quantos amantes não viraram amigos? Acontece, pois somos cada um de nós sempre responsáveis por aquilo que cativamos. Basta que os dois estejam dispostos.
Mesmo tendo vivido uma desilusão, assim como Tobias viveu, eu continuo acreditando. Sou inegavelmente romântica, continuo levando fé em anjos, em bruxas e nesse ser mitológico que é o amor. Podemos não crer, mas que ele existe, existe. Acontece no momento certo, com as pessoas certas. Quando tem que ser, ele é. E não tem força ou conveniencia no mundo que consiga quebrá-lo. Virada a página, que venha a próxima paixão, para mim e para Tobias. Sorte nossa, por mais que os fatos tentem nos convencer do contrário, o essencial será sempre invisível para os olhos.
Diário Pessoal, Isa Schulberg | 1 Comentario »