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Sobre a origem do mal

Escrito em Julho 3rd, 2008

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Em um golpe de sorte, consegui achar um livro que estava querendo há muito tempo: Wicked – Maligna, de Gregory Maguire, autor conhecido por recontar histórias de fada sob a ótica de personagens secundários. O primeiro que li dele, “Confissões de uma irmã de Cinderela”, dialoga sobre beleza, feiura, aceitação e sociedade, de uma maneira nem um pouco infantil. Em sua nova fábula, Maguire conta todo o passado da infame Bruxa do Oeste. Essa mesma, de pele verde e vassoura voadora, que tanto aterrorizou Dhorothy em o Mágico de Oz.

Na trama, tudo prova ser diferente do que realmente aconteceu. Descobrimos que Elphaba (a bruxa) era amiga de Glinda (a fada boa, lembram?), a origem dos sapatinhos de rubi, a verdadeira face do Mágico de Oz, entre outras liberdades póeticas que servem de pano de fundo para discutir sobre preconceito e a importância de lutar por seus ideais. Inevitavelmente, me peguei pensando nos últimos dias sobre a origem do mal.

Um trecho do livro diz que “não há necessidade de se tecer fábulas sobre a razão de o mal aparecer em um dado lugar, porque ele apenas aparece, apenas existe. Ninguém sabe como o vilão se tornou malvado, ou se essa era a escolha certa para ela – será esta a escolha certa, realmente?” O autor diz, na fala de sua personagem, que o mal é uma questão de definição. Eu vou além e digo que é uma questão de escolhas, de momentos, de interpretações.

Quando conhecemos alguém novo, diferente, nossa primeira impressão conta muito. Algumas pessoas são detestáveis, não batem, não colam. Eu, por exemplo, detesto gente que acaba de me conhecer e já vem me abraçando, me beijando, mostrando os dentes todos e chamando de sorriso. Acredito na simpatia das pessoas, mas não acredito que ninguém possa ser tão simpático com alguém que não se conhece.

Do outro lado, estão as boas impressões. Aquelas pessoas com quem você se identifica, percebe que tem um bom papo, coisas em comum. Aquelas com quem você não se incomoda de trocar telefones, porque sabe que não tem nada a perder. As vezes é coisa de momento, fica ali naquele primeiro encontro e não sai dali. Mas quando sai e vira algo mais, é ótimo. Quem não gosta de fazer novos amigos?

É neste ponto que vem o famoso pausa e rebobina. Primeira impressão não seria um pré-julgamento? E se o sorridente fosse uma excelente pessoa, no entanto devido a meu preconceito, não pudesse demonstrar sua inteligência, sua capacidade para guardar segredos, para se tornar um amigão? E se aquela pessoa com quem você se deu logo de cara fosse egoísta, interesseira ou quisesse nada mais que uma noite de sexo? Prova de que o que não nos agrada pode ser bom e o que nos apetece pode ser mau.

Quantas vezes não nos decepcionamos com as pessoas? As vezes acreditamos, investimos e quando chega no fim, temos a sensação estúpida de que nada valeu a pena. As vezes somos precipitados e julgamos a pessoa por simples gestos, falamos mal, mudamos de opinião, nos chateamos, nos irritamos e no final nada era do que pensávamos ou teorizávamos.

Elphaba, a bruxa, nasceu verde, foi rejeitada pelos pais, sofreu preconceito, perdeu o amante, tornou-se rebelde contra o sistema de Oz. Maligna? Sim, na medida em que seus motivos para fazer o que fez afetam outras pessoas. As mesmas que tiraram suas próprias conclusões, teorizaram, inventaram, não se prenderam aos fatos e acabaram com sua reputação.

A grande verdade, no fim, é que o ser humano tem um grande potencial para a maldade. É muito mais fácil ser egoísta, não pensar no que o outro pode sofrer com nossas atitudes, teorizar sobre ausências e atitudes. Jogar pedras no telhado de vidro alheio é muito mais fácil do que olhar para os buracos do nosso, então, por que não fazê-lo?

Sou da opinião em que todos são movidos por motivos pessoais. No fundo, por mais boa que seja a pessoa, quando a corda aperta, prevalece o farinha no prato, meu pirão primeiro. Bom não é aquele que consegue lutar contra esse instinto egoísta, mas aquele que reconhece este sentimento e é capaz de aceitá-lo. Bom é aquele que sabe ver isto no outro, na medida em que reconhece que ele igual a você e aceita isso como condição sinequanon para conviver ao lado de quem se gosta, de quem se ama, de quem se quer bem. Maldade é achar que somente o outro tem defeitos, que somente ele pode feri-lo, ultrajá-lo, esquecê-lo, insinuar e manipular.

Faltam Elphabas de pele verde e muitas são as fadas Glindas desse mundo. E uma vez sabendo disso, vamos construíndo nossa fábula pessoal, aprendendo com nossos erros e contando nos dedos aqueles que realmente valem a pena. Sorte nossa que nesse Reino de Oz ás avessas em que vivemos, para cada pé cansado, sempre existe um sapatinho de rubi. E é nisso que precisamos acreditar para viver nosso final feliz a cada dia.

Para quem tiver interesse em se aprofundar em Wicked:

Amor, costume e cheiro de café

Escrito em Julho 1st, 2008

 

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Amor. Nas últimas semanas, me peguei novamente pensando sobre este sentimento que é dúbio, estranho, mutável, certamente irracional quando fora da medida. Tudo por causa de Sabrina, que fez questão de me pagar um café em pleno expediente para contar a mais recente novidade: estava apaixonada por um cara bom de papo. Logo ela, que sempre prezou pela beleza, pelos homens mais gostosos – casou-se com um, inclusive. Agora, depois de quatro anos em um relacionamento feliz, acabou conhecendo alguém capaz de mexer com sua cabeça. Novamente.

O que começou com um simples papo, virou flerte. E flerte permanece até que um dos dois decida tomar o primeiro passo. Sabrina não sabe o que faz, jura que ama seu belo marido, mas ao mesmo tempo sente-se balançada pela novidade. Então, entre uma jogada de palavras e outra com o boa gente, avança um passo e volta três, com a certeza de que com o tempo isso vai passar.

Dou a mão a palmatória e me pergunto: seria amor de fato um sentimento de costume? Depois do arrebatamento inicial, das paixões dos primeiros anos, das loucuras impensáveis na cama, tudo se resumiria a uma zona de conforto? E, uma vez deitada em berço esplêndido, o quão difícil seria se levantar e sentir o cheiro do café? E se levantar-se não fosse uma opção a se considerar?

Enquanto isso, do outro lado da cidade, dois grandes amigos brincam de ser liberais. Desde que o primeiro confessou para o segundo que tinha vontade de transar com outros homens, e, pelo bem da relação, os resolveram institucionalizar a liberdade. Pode beijar, pode transar, pode fazer manàge. Com amor não se brinca e hoje, Pedro e Carlos competem para ver quem chama mais a atenção do macho da vez. Na frente dos amigos, vestem-se de avant-garde, ultra-modernos, mas a cada dia que passam transformam seu costume em raiva, competição, rancor.

Para minha querida Sabrina, não existe solução. Ela pode tentar, arriscar uma aventura com o boa gente e descobrir que valeu a pena. Ou pode voltar para seu lindo marido e arrepender-se para sempre. De uma forma ou de outra, algo mexeu dentro dela. O amor acabou? Não. O costume tomou conta e agora ela não quer abandonar o que lhe é familiar, por ser mais seguro e coerente? Não.

Sabrina apenas gosta do novo, da mesma forma que todos nós gostamos. Sinto mais pena do boa gente, que nessa brincadeira pode acabar se apaixonando. Isso se ele não tiver o costume de transar e sair fora, hábito cada vez mais freqüente entre homens e mulheres. Ou pior, se não for do tipo interesseiro, que se aproxima quando existe algo a mais em jogo. Neste caso, temo por Sabrina.

Inovar, tentar apimentar a relação por vezes, desde que feito de maneira consciente para ambas as partes, pode ser bom para quebra de rotina. Mas não quando a coisa toda vira um hábito destrutivo, ou um costume, como no caso de Pedro e Carlos. Claro que dói, mas nenhum deles é capaz de admitir a derrota para o outro. Para eles, a tendência é aumentar a ferida até que não agüentem mais. Ou até que um deles se apaixone por um dos machos que se presta ao papel de trave da vez. Verdade absoluta é que nesse jogo, quando não se sabe quando parar, ninguém sai ganhando – e meu desejo é que eles descubram isso antes que seja tarde.

Continuo convencida de que amor não é costume. Claro que anos passam e nós nos habituamos com a mesma pessoa, com suas qualidades, com seus defeitos, com todo seu jeito de ser. Mas o amor, esse é a única coisa que não pode virar hábito. Estranhos opostos, quando o costume se instala, é sinal de que o amor foi embora. Pena que muitos demorem uma vida para descobrir isso. E uma vida, por mais que alguns jurem o contrário, passa num piscar de olhos. Mais rápido do que o tempo que demoramos para sentir o cheiro e sorver uma gostosa xícara de café.

Quem manda na minha cama sou eu!

Escrito em Maio 20th, 2008

 

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Foi lendo o jornal que descobri a história de Maria. Moça na faixa de seus 30 anos, casada há 10, diz que não consegue mais sentir prazer com o marido. Por uma simples conveniência, prefere fingir orgasmos diariamente, algumas vezes duplos e triplos – tudo para agradar o garanhão. Isso há quase 3 anos. Ao ler este texto, não sei o que mais me espanta: o fato de alguém ter a coragem de fingir orgasmos para agradar o outro por tanto tempo ou o cárcere privado que Maria se auto-impôs.

Nos tempos modernos, sexo deixou de ser sinônimo de geração de filhos ou preservação da espécie. Cada vez mais, buscamos o prazer máximo, sem limites, aquele que nos deixa eufóricos, que nos alivia ou que simplesmente atende nossos instintos. O que não faltam são mecanismos milgarosos, encontrados aos montes em Sex Shops e em farmácias – outro dia mesmo, manchete de revista científica falava da pílula rosa, comprimidinho unissex capaz de manter o tesão por horas. Ainda assim, ainda existem pessoas que insistem em vincular sexo à obrigação, corriqueira como escovar os dentes.

Ok, mulheres fingem. Homens conseguem ereções fantásticas em um gole d´água. Mas até que ponto transformar sexo em rotina é algo aceitável? Estaríamos mais uma vez modificando conceitos e separando prazer do ato em si? Para transar e fingir é só começar?

Rogério é tenente da Marinha, casado, pai de um menino lindo. Sua mulher é loira e linda, um exemplo da esposa perfeita, nascida para ser dona de casa. Nas quintas à noite, Rogério esconde-se sob a desculpa de futebol com amigos para ir a saunas em busca de prazer. Falta-lhe coragem para assumir sua homossexualidade. Sexo com a esposa? Uma vez por semana, a base de viagra. Eu, particularmente, duvido que ela não desconfie – e se souber, não sei quem é mais culpado nesta história.

Histórias como a de Rogério e Maria repetem-se em diversos níveis sociais, países e famílias do mundo inteiro. Ambos enganam seus companheiros e, pior, enganam a si mesmos. Não é mais fácil para Maria largar o marido e encontrar alguém que saiba transar gostoso? Por que Rogério não se separa e procura amor (e sexo) ao lado de outro homem? Parte porque vivemos em uma sociedade que venera aparências, católica, apostólica, romana, quadrada, onde a mulher casada deve ser propriedade do marido e o homem deve ser sempre o macho varão.

Esta não é uma tese a favor do liberou geral. Pelo contrário, visto a camisa do mal estar na sociedade, concordo que o homem precisa de leis para viver em grupo. Apenas discordo de limites que nos impeçam de ser nós mesmos.

É uma pena que nossa consciência algumas vezes insista em criar limites desnecessários, como se o público pudesse invadir o privado com tochas na mão e sentenças de fogueira e enforcamento. Em uma sociedade que se diz pós-moderna como a nossa, hipocrisia é não declarar liberdade para as bruxas. Falta a muitos a consciência de que aquilo que acontece entre quatro paredes, em cima da vassoura ou dentro do caldeirão diz respeito a cada um. Por isso, viva o abracadabra. Quem não quiser ver ou participar da sua cama que se retire.

Pequena wikipedia amorosa

Escrito em Maio 18th, 2008

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Esta semana, discuti com uma grande amiga sobre amor. Chateada com recentes acontecimentos, ela insistia em dizer que o amor não existe. De acordo com sua teoria, o sentimento nada mais seria do que um acordo tácito entre duas pessoas que já possuem determinada afinidade. Isso aconteceria porque é muito mais cômodo continuar repetindo que se ama do que separar-se e arcar com as conseqüências.

Esse apavorante pensamento me deixou intrigada. Poderia minha amiga estar correta? Os casais do novo século, pós-modernos, pós-terapeutas, pós-swing, estariam transformando amor em nomenclatura? Mais vale estar junto sem amor do que amando-porém-a-procura?

Sabrina vive com alguém egoísta. A casa da mãe dela pegou fogo, mas o marido acordou com desejo de nabo, lá vai ela para a feira enquanto as coisas esquentam para a pobre senhora. Jonas quer assistir a final do Brasileirão no Maracanã e ela não hesita em deixar seus filhos com Jack o Estripador – e ainda vai vestindo a camisa do timão. Da última vez que a vi, tive a oportunidade de perguntá-la se amava o marido, mesmo com seus gostos nunca sendo prioridade. Suspirando, ela disse que era melhor assim do que começar tudo de novo.

Em um chopp entre amigas, soube que Maria, uma escorpiana que tinha tudo para ser bem sucedida, largara tudo para morar em outro estado ganhando salário de balconista – tudo para ficar mais próxima do seu affair de internet recém-conhecido. Para os integrantes da mesa, Maria enlouquecera. Para mim, restou a dúvida sobre as diferenças entre amor sem remédio e doses insatisfatórias de prozac (ou falta de sustagem na infância).

Amor não é algo fácil de definir, dissertar ou discursar. Senti-lo, então, é um capítulo a parte da novela, uma epígrafe que nem todos tem o prazer ou a paciência de estudar. Alguns não chegam à página 2, outros folheiam e acham que já sabem de tudo. Talvez porque amor é tese para ser degustada a dois e ambos tem que estar em sintonia suficiente para não se perderem na leitura.

Para Sabrina, falta um pouco de amor-próprio para saber que ela pode mais, que amor não é sinônimo de abstinência. No caso de Maria, a ânsia de encontrar amor pode levar a trágicas conseqüências. Para a geração X, ser menos egocêntrico, mais sincero e mais sensato é tarefa hercúlea. Não é qualquer um que consegue quebrar nossa casca cosmopolita, da mesma forma que é preciso mais do que um torniquete para fazer o mesmo pelo outro.

Impulsivamente, disse para minha amiga desiludida com o amor que se ela não acredita, a ponto de dizer que a paixão é uma questão de conveniência, provavelmente nunca amou ou nunca encontrou alguém que a amasse. Sei que fui ríspida, mas no fundo eu consigo entendê-la. Não é correto julgar alguém por sua própria bagagem.

É verdade incontestável que quando dois se juntam, tudo pode acontecer – mas afinal, a graça não é justamente essa? Faz parte do amor aprender a equilibrar diferenças, a construir confiança, a saber falar o que sente e ouvir o que o outro tem a dizer. Acima de tudo, faz parte do amor saber aceitar a diferença – não é a toa que a epígrafe é best-seller desde os tempos da caverna. O negócio é nunca desistir de ler, nem que para isso seja necessário dar sua própria contribuição. Afinal, se a Wikipedia pode ser democrática, amor também pode. Ainda bem.

Speed Racer - o filme

Escrito em Maio 16th, 2008

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Antes mesmo da Marvel sonhar em fazer heróis divididos entre sentimentos e senso de justiça, os japoneses sabiam como contar histórias de aventura. Em todas suas histórias, fica clara a importância de uma ficha de personagem complexa, com pontos fortes, fracos e segredos que fazem toda a diferença - principalmente quando são revelados. Speed Racer, nos anos 60, foi um destes pioneiros.

A história do corredor do carro super equipado Mach 5 conquistou fãs no mundo inteiro, que acompanharam os episódios ansiosos por decifrar quem era o Corredor X, se Trixie ia finalmente dar um beijo em Speed, qual seria a próxima macaquice de Gorducho e qual seria o próximo inimigo que tentaria impedi-lo de cruzar a linha de chegada. A premissa simples era pretexto para episódios cheios de ação e muito colorido, novidade em uma época em que Pokémon nem sonhava em dar ataques epiléticos nas crianças.

O filme, adaptado pelos irmãos “Matrix” Wachowski, tem tudo o que o desenho original tinha e muito mais.

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